Quatro lábios

Um Súcubo sutil talhou tua boca
Duma cor infernalmente louca,
Pulsante, sanguinária, sensual
Como a carência do desvelo sexual...
Numa hipnose, o teu químico feitiço,
Este que me traga por inteiro – este viço
De possuir-me em teu brando holocausto
Até que me renda, que me renda exausto...
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Minha cara, quando vier à lassidão
Uma nudez que morde e come o coração
Entenderás qual é o “quê” do desespero:
Foi feita a ti, com plácido esmero,
Por um qualquer, numa vertigem rouca
A suprema escravidão da minha boca...

A moderna instituição falida

No ermo longínquo

Ele era o pai. O protetor da manada. Comia a mãe.
Toda manhã calçava seus crânios de Eva, levantava as sobrancelhas, dentava o braço de alguém, espremia um gambá e dois limões no sovaco e saia, mas nunca de si.
Em seu trabalho que não tinha, quase intencionalmente, era o melhor. O não-trabalho consistia em não-dizer. E para tudo não dizia como quem do Não já se faz parte. Fora sempre chamado para todas as orgias feitas em homenagem a Baco.
Houve um fato até muito importante no alvo de sua rasteira. Certa noite, quando caia o temporal em preto e branco e gotas afoitas faziam um jazz em tampas de lata de lixo, uma filha nossa cruzou em seu caminho, com um no colo ao peito, outro na mão esquerda, outro mais velho sozinho ao lado, e um na barriga. Pediu-lhe fim de fome, começo de esperança e talvez uma palavra. Mas ele, que era cristão, e mais que isso, era profissionalmente não-capaz, logo, não fez por onde e não deixou de cuspir enquanto ignorava a dança dos índios. Ocasionalmente coçava seu ânus em um banco de bar, bebia a lembrança dos outros na saída do seu não-emprego, e, se embriagado, brandia a espada de injustiça na mão.
Ele era o pai, e tinha documentações para isso.

O Constante da Inocência

Entre a chuva particular

Com teus olhos perseguidores
Vieste. E esta frequência vital,
Feito rosário em teu seio,
Me discursava a destruição
De um pormenor manchado de
Suor. E o que mais dela eu queria

Era as flores em festa
De um carnaval carnívoro.

Por condolências vinhas
Dos vinhedos falsos, dos regaços
De extinção.

Eras todo o mal do esquecimento,
Toda maldizente. Amaldiçoavas por uma tarde
Inteira a se pôr ao meu lado
Quando eu era colo e repouso.

Não me soubeste dos fatos ocorridos
Quando foste em forma de dor,
Quando foste em brisas que não correm
Em nossos rostos...

Muito embora eu, como minha testemunha,
Houvesse de cristianizar os cacos remanescentes,
Numa sozinhez prostituta,
Eu era feliz.

Avulsos pós-punk IX

Todo homem igual, ou não,
É o mesmo homem igual.
Todo homem, por humor ou inconsciência,
É mal.
*
Noite e dia – só a tarde permanece...
Somos todos múltiplos um,
Pois já é tarde demais
Para a vida... e não há mal nenhum.
*
Parede + cabeça = Impacto inteligente.
*
Serelepe, o Parlamentar,
Em seu discurso flatulencioso:
– Foder-vos-ei num foder fatal e fútil!
E o povo ri um sorriso sem pregas.
*
A mentira tem coxas grossas.
*
É impossível montar borboletas,
Não pelo desacato natural, mas por
Dizerem: – não é o mal dos poetas
Ir por aonde não ir, meu amor?
*
Já está batido o assunto das marionetes
Que somos,
Já está oculto o nosso bolor entre os dentes –
Supomos.
*
Eu riria – entretanto os tantos que ainda
Nos aveludam o ego, o corpo, o pormenor,
São a sedução, a ramificação advinda
Dos versos tortos que tu sabes de cor...

Do silente gris e das lâminas

Se for do natural da alma calar-se,
Não é saber dos calos que são dados
Aos dedos.

Ponho um punhado de símbolos e sirvo...
Já com mesa posta, oponho e apanho risos...
(Sabe-se pouco desses loucos indecisos.)

O ponto é a porta. O infinito é a fuga. É abundante
Torrente em direção ao dentro,
E fora a alma
E o tempo.

Íngreme, desço, obedeço... – deito
E agora não esqueço.
Minha inveja invejava o natural das coisas
E agora só as rosas
De um delito
Ou de um leito.

Se for do natural da alma
Que seja dentro em outra
E que ao calar-se
Não se vale,
Não se salve de si,
Não se fale.
*
Gris – na lua uma estrela dependura-se. Um laço, um nó, um passaporte ao Éden. Dê-me apenas às lâminas, pois hoje acordei para cortar. E meu cérebro de ave agoureira tem debatido com paredes desmioladas.

Eu só. E se?
Assim que fecharmos a porta o mundo se fará em mil pedaços.

Relicário de ossos


De fato és tu que me tomas – hábil,
Como, em tuas mãos, o pecado frágil...
Esboçavas laços - entrelaços lassos 
Entre presas parcas em despedaços...

De fato és tu que me roubas – vagas
Onde me afogaste ainda me alagas...
Rascunhei-te nua por no verso vê-la
Como minha alma exilada estrela...

Feito fasto triste e inútil de luz
Fui fincado ao crânio dum relicário
Caveiril – não sejas qualquer calvário...

Desde então sou braços dignos de cruz
Ou apenas abraço – prado de amor vasto
Segredando a morte em teu corpo casto...

Vodka


Nada que te disser te será dito como aquilo que é. Embora seja. Por favor, esqueça meu rosto em uma lama de poça chacoalhando os cabelos molhados. Em três minutos o crematório faz com que seu nome se reconheça. Que se reconstrua meu corpo no teu altar.
 – Ora, meu caro D, o desatino que me trazes em tua rima comum, este dito puro e simples, é a ruína dos meus passos!

Eu ansiaria te expor se me ouvissem os amarantos. E me internaria se me respondessem.

Clínico e jugular


Eu decidi pela proposta mais inconfiável. Aos montes os teus risos, cheios de vogais macias, empurraram-me, e caio. Muito embora o gosto de terra enxuta me seja proveitoso, nas tardes folhosas, é nos olhares clínicos das árvores que nascem esses mudos conflitos.

Então, mãos nos bolsos não fortificarão muralhas. Vou ornar-me... jugular-me com pontos de fuga e de sangue.

Bronzes e Cristais


Quanto areia ainda na ampulheta... quem te crê, dócil demônio da esperança, que te compre!
Acompanha-me, pequeno, piruetando entre minha marcha hostil. Ao café dás este véu em sépia – a tarde é sépia... todo tagarelar dos pombos em preto e branco.
Quanta água ainda na clepsidra...

Outra vez ébrio do neon da loucura. Se perguntarem, diga que eu fui e diga que vais...

Chá de boldo ou licor de hortelã


A incompetência da vida. Crio raízes. Enquanto neste velho campo santo e desconhecido vou dando nomes às flores ao redor, que maldizem o meu. Nascem-me frutos. Em meu sabor o perigo de encontrar-te. É o fim das horas em que vivo...
A incompetência da morte. Libra deve ser o signo de deus. És justa. Resvalar-me por uma tarde embrulhada em neblina, foi tua herança. O Equilíbrio tem nos distanciado, o que não te impede de envenenar meu sono.

Perspectivas


Enquanto não chegas os meus olhos desconfiam da porta. O rosto sobre a mão. Os dedos sobre os lábios, e entre eles a névoa, leviana, visceral, inevitável...

Enquanto não vais tramo um brinde final, na crença que teus futuros com o tempo se esclarecerão. Recordarás somente ao corpo – nós pertencemos à imagem, mas só até o dia do brinde.

addio – lebewohl – αντίο – adieu – שלום – näkemiin – numquam


Há tempos o “adeus” vem me educando os modos. E quando é forçoso que, por espírito imaturo, haja a voz da rebelião, o “adeus” é a chave. Querida, se eu me soubesse te diria... mesmo que em alguma madrugada o curso do nosso vôo não obedeça as marés de março...
É um bom tempo este aqui. E se não te digo é porque tudo me diz...
– adeus... adeus... as horas, as manchas úmidas nessas janelas, os gestos particulares. Nem a palavra fica depois de dizê-lo.

E se é dito, tudo muda em antes. E se não é, foi por covardia.

Virgens de sacrifício


A simbiose do só

Exalam hálitos de violetas e evolam-se placebos de alegria. O contrabaixo aveluda em tons obscuros – minhas estranhezas noturnas são felinos desnutridos namorando o telhado.
Dentro desta sonata das dores eu meto a cara e, submerso, pouco em pouco obro os olhos. É no profundo álbum de fotografias que a morte gargalha, por sugestão sorrio também. Não é pouco comum a lua que faz agora...

Se à meia-luz as palavras trafegam em um corpo nu – és a responsável. O que me tornei? – revanche!
O amor é a magia negra mais branca.

Miserando


Pôr onde há purismo o outro lado sujo
E deformar finais. Devotar-me ao que nutre
Os teus ínfimos dias. Chilrear o ouvido cujo
O querer não é o mesmo fito dum abutre...

Originar a noite àquela que é do luto,
Que ao banhar-se me toque em sua chaga ou íngua;
Esmeraldar-te a fronte sã com o desfruto
Do adoecer tremular fictício da língua...

E para este odor, dissimulando planos,
Ofertaria teus pulsos aos sábios enganos
Se te entreteres, fria, com a cadeira elétrica...

É meu dever, enquanto engrifo este acorde,
Servir-te em comunhão com esta horda que morde
O teu seio milenar – ah Ilusão patética!

Horizonte Pluvial


É de uma ponte em madeira o nome...
O segredo doentio que me trazes,
Em lilases perfumes adocicados,
Aos cuidados de nuvem, sutilmente,
Em névoa deitada em terra firme:
 – Primavera em rubor a cheio peito!

Incrédulo Eros colore o espaço ao gosto clássico...
Tu me detinhas entre fio de espada
Quando veio o orbe da insensatez,
Quando me bastava saber o que será...
Se tivéssemos a nós,
                                  Se fugiste no apelo duma voz...
E te escapei entre as janelas oculares
E nos lugares onde foram nossos dias –
                                                                 Só algias...      
Punge a murcha sensação –
De quando em sempre o arranco descontínuo
Do que é e do que não.
                                      Até onde vais ser não?
                                      Ainda que outra Era venha
                                      Dar ciência deste Outono
                                      Como alguém que se empenha
  
                                      Na acuidade duma febre
                                      Ou no primor letal,
                                      Seja isto que me torno
                                      Seja aquilo – bem ou mal...
Primavera em furor. Há
De curar-se o desequilíbrio, tal
Quando transpor a derradeira ponte –
                                                            Horizonte      
                                                            Pluvial.